MEMÓRIA: O Pereirão e a história de um estádio que revolucionou o cotidiano de Serra Talhada

Por Paulo César Gomes, professor e historiador serra-talhadense

Não existem muitos registros escritos sobre o início da prática futebolística em Serra Talhada. Desta forma, se torna impreciso a identificação dos locais onde os serra-talhadenses costumavam disputar partidas de futebol.

Porém, com base em fotografias das décadas de 1930 e 1940, e tendo como referência as obras de construção da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha e as paredes do Hospital Regional Professor Agamenon Magalhães, é possível dizer que nos períodos acima citados, os jogos eram realizados em um campo que ficava onde hoje estão localizadas as ruas Padre Ferraz e Agostinho Nunes de Magalhães, uma das poucas áreas planas do centro da cidade.

Altletico de Damiao Romao

O Atlético de Damião Romão em partida realizada no campo da várzea em 1957. Em pé da esquerda para direita encontram-se lado a lado o Deputado Inocêncio Oliveira e o ex-prefeito Nildo Pereira.

Com o crescimento urbanísticos do centro de Serra Talhada, que se deu nos anos 50, o campo foi extinto, o que levou os atletas amadores a construir um outro campo. O local escolhido ficava bem afastado do centro da cidade, em uma área próxima ao rio Pajeú e que pertencia à família Pereira. Surge então o campo da várzea.

Os jogos no campo da várzea era sempre uma grande atração e mobilizava toda a cidade, antes porém, ele era cercado com cordas e para assistir às partidas o público costuma levar sua própria cadeira ou tamboretes, além de usarem a carroceria de caminhões como camarotes improvisados. Era comum encontrar na lateral do campo um gogo de sapateiro, que era usado para apertar os pregos que sustentavam os cravos das chuteiras dos atletas.

Pela terra batida do campo da várzea desfilaram grandes jogadores e personalidades da cidade, como Manoel do Galo, Ageu, Clóvis, Tidão, Assis Duarte, Zé Bracinho, Paulo Moura, Psica-Pisca, Bria Pau Ferro, Chico de Roxa, Vadinho Godoy, Hermes Soldado, Ivanilso de João Máximo, Caíta Carvalho, Nicinho Ferraz, Neguinho da Quixaba, Adelmo Rodrigues, Cecé de Padre Afonso, Daguinha, Zito, Paulo e Antônio de Seu Micena, Reina de Agamenom, Raimundo de Gedeão, Vincente Bola Sete, Lelinha, Citonho Macineiro, Aragão, Edmilson Lima, Fernando da Favela, Assis de Florentino, Luiz Leite, entre tantos que por ali desfilaram seu futebol.

Outros craques que passaram pelo campo da várzea entraram para história da cidade, muito mais pela política do que pelo futebol apresentado na época, a exemplo do deputado federal Inocêncio Oliveira, do irmão, o ex-prefeito Tião Oliveira, e do também ex-prefeito Nildo Pereira. Coube a esse último a realização da obra mais importante do nosso futebol, a construção do Estádio Municipal Nildo Pereira de Menezes, o Pereirão.

Nascido em meio a uma das mais tradicionais família do ciclo político de pernambucano, Nildo Pereira foi desde cedo influenciado pelo pai, o já falecido ex-deputado estadual Argemiro Pereira, o jovem deixou a sua paixão pelo futebol para adentrar na carreira política, mas antes disso, ele ainda jogou pelo Comercial e pelo juniores do Náutico, tendo como parceiro no clube da Conselheiro Rosa e Silva Inocêncio Oliveira. Em 1969, Nildo Pereira foi eleito prefeito de Serra Talhada, sendo seu vice o então vereador Tião Oliveira.

Segundo o ex-prefeito Nildo Pereira, em função das suas ligações com o futebol, muitos atletas lhe procuraram reivindicando a construção de um estádio. Diante disso, ele resolveu atender ao pleito e logo no início indenizou o terreno no qual ficava o campo da várzea, às obras de construção do estádio municipal levaram quase cinco anos para serem concluídas. As verbas usadas na edificação tiveram origens nos recursos próprios e no dinheiro arrecado com a venda das ações da Petrobras pertencentes ao município, o processo de venda foi autorizado pela Lei 299 de 18 de janeiro de 1971.

O projeto da praça esportiva foi desenvolvido no Recife pelo engenheiro Manoel Custódio dos Anjos Filho, e contou com a participação do também engenheiro Gildo Pereira de Menezes. Os mestres de obras foram Januário Pereira e Benedito Duarte (Seu Dito). Além da mão-de-obra, outros materiais oriundos da cidade foram usados na construção, a exemplo de 600 cadeiras de ferro confeccionadas pelos estudantes e professores do Ginásio Estadual Industrial, hoje Escola Referência Cornélio Soares.

O estádio foi inaugurado em 21 de janeiro de 1973, e contou com as presenças do então vice-governador Barreto Guimarães (1971-75), pai do médico ortopedista André Barreto, e do ex-presidente da Federação Pernambucana de Futebol, Rubem Moreira. O jogo inaugural foi realizado entres as equipes do Santa Cruz e do Sport, o tricolor venceu por 3 x 0, com dois gols de Erb e um de Fernando Santana.

Fotos do dia da inauguracao do Estadio e dos times do Santa Cruz e Sport 

Santa Cruz - Inauguracao do Pereirao

Sport - Inauguracao do Pereirao

Fotos da Inauguração do Pereirão e dos times do Santa Cruz e Sport

 O estádio foi construído para um capacidade de 5 mil, mas extraoficialmente já chegou a receber mais 10 mil pessoas. O maior público que se têm registro foi na partida entre o Comercial e Santa Cruz, realizada em 24 de agosto de 1980, apesar da derrota do clube serra-talhadense por 3 x 1, 9.473 pessoas pagaram ingressos. Pelos gramados do estádio jogaram alguns campeões mundiais pela seleção brasileira com Garrincha e Zeti (goleiro).

Ao longo das últimas quatro décadas poucas mudanças foram feitas no Pereirão, as mais significativas foram a elevação dos vestiários, já que antes ele era abaixo do nível do gramado o que facilitava o alagamento durante o período de chuvas e a ampliação e cobertura do setor de cadeiras.

Outras alterações foram nas cabines destinadas à imprensa, no sistema de irrigação e iluminação. Vale salientar que existe área suficiente para que a capacidade do estádio seja ampliada, incluindo-se também a possibilidade de construção de lojas de material esportivo e de um museu sobre a história do futebol do município, conforme sugestão do prof. Dierson Ribeiro.

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Fotos do estádio o Pereirão

Ainda que a obra tenha sido realizada em um período ditatorial e por isso a construção do estádio tenha sido usado de forma oportunista pelo regime militar, ao ponto de placa da inauguração ser colocado como sendo uma obra do “governo revolucionário”.

O papel do Pereirão como agregador social e instrumento de construção psico-educacional para os jovens da cidade são indiscutíveis, principalmente quando verificamos a escalada crescente das drogas no meio juvenil, ainda mais que a cidade avança sem planejamento e sem projetos que atendam as necessidades do setor.

A falta de organização urbana e de política públicas está levando a extinção dos campos de várzeas. Segundo o presidente da Liga Desportiva de Serra Talhada, Erivaldo Genoíno, só existem hoje dois campos de várzea, um no bairro da Cachichola, e outro na Borborema, conhecido como “o voo da morte”.

Sendo assim, a mensagem gravada na placa da inauguração do estádio se torna mais atual do que nunca: “Marco no desenvolvimento físico e mental para a nossa juventude, de quem depende o futuro do Brasil de amanhã”.

 Um abraço a todos e a todas e até a próxima!

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