A força e a imortalidade da poesia de Emygdio de Miranda

Ser Estrella

 

Quem me dera subir ao céo profundo,

num vôo do condor, achar-me pelas 

luminosas regiões, longe do mundo

ver o suave connubio das etrellas!…

E com olhar enfrebrecido, ao vêl-as

amando calmas, pelo céo rotundo,

– homem, pó- haveria de entendel-as

no seu amor castissimo e fecundo.

Vendo-as noivar pela amplidão, serenas,

puras, livres de vicio e de peccado,

livres das ansias e paixões terrenas,

pediria ao Creador que me tornasse 

estrella, para amar nocéo calado,

sem dezejo e sem lagrimas na face!

 

5 de vovembro de 1924

Credo 

Bizarro sonhador, eu creio em lendas

e na mythologia do hellenos…

creio em todos os contos e legendas

dos amores libérrimos de Venus…

E nos deuses, serenos,

do Walhala, dos duridas, sem contendas, 

creio… E também no Deus dos Nazarenos,

– Jesus – que andou por dolorosas sendas

Creio em tudo o que a lenda e a história antiga

dzem, no anonymato ou no registro.

Mas, francamente, é bom que aqui te diga

que, afinal, crendo em tudo, em nada creio:

porque a verdade, é que só creio nisto:

-no céo de amor de teu nevado seio!…

 

10 de Novembro de 1924

 

 Os poemas acima, intitulados de “Ser Estrella”“Credo”  fazem parte do livro Rosa da Serra, escrito pelo imortal e genial Emygdio de Miranda, um dos exemplares dessa obra rara pertence ao Professor e Escritor Dierson Ribeiro. Os sonetos foram escritos em 1924, quando o poeta tinha 27 anos.

EMYGDIO DE MIRANDA, O “VATE PEREGRINO”

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Waldemar Emygdio de Miranda nasceu na cidade do Recife, em 05 de agosto de 1897. Seus pais foram o professor Auxêncio da Silva Viana e sua esposa D. Maria dos Passos de Miranda Andrade, que se fixaram em Serra Talhada, abrindo uma escola na sua residência, na Praça Sérgio Magalhães, tendo tal fato acontecido no princípio do século passado até mais ou menos o ano de 1920. Emygdio viveu na cidade até os 18 ou 19 anos de idade.

Ainda jovem entregou-se ao vício do álcool, sem abandonar, portanto a poesia, e passou a peregrinar pelas cidades do interior pernambucano, como Triunfo, Arcoverde, Caruaru, a capital Recife e Princesa Isabel, na Paraíba, o que lhe deu o carinhoso apelido de “Vate Peregrino”. Foi amigo de alguns dos mais importantes coronéis da politica da época, entre eles, Cornélio Soares e José Pereira.

Com a sua poesia encantou dezenas de pessoas, conquistando o respeito e muitas paixões. O poeta não teve o prazer de ver suas obras publicadas, faleceu em 29 de agosto de 1933, aos 36 anos de idade, pobre e abandonado, em Arcoverde (na época Rio Branco) onde foi sepultado. Após a sua morte os amigos reuniram alguns desses poemas e publicaram nos livros “Rosal” e “Rosa da Serra”.

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Professor Dierson Ribeiro (Farol de Notícias/Alejandro J. García)

ALGUNS DOS MAIS BELOS POEMAS DE EMYGDIO DE MIRANDA

 

A um burguês

Tu ventrudo burguês analfabeto,
Escultura rotunda da Irrisão
Para quem um viver mais limpo e reto
Consiste em ser avaro e ter balcão;

Tu que resumes todo teu afeto
No dinheiro – o metal da sedução
Pelo qual negocias, abjeto,
Tua esposa, teu lar, teu coração;

Escuta oh ignorantaço o que te digo:
Esse ouro protetor, que é teu amigo,
Que te deu o conforto de um Pachá,

Pode comprar qualquer burguês cretino,
Mas a lira de um vate peregrino
Não compra, não comprou, não comprará!

Esta que passa

Foi minha amante esta mulher que passa…
Sorveu-me em beijos todo o meu ideal!
E comigo bebeu na mesma taça
O vinho do desejo sensual…

Muito tempo possuímos nós, sem jaça,
A gema da ventura triunfal!
Mas um dia partiu… E ei-la devassa,
Bracejando no pélago do mal…

Quando ela passa, eu vejo na tristeza
De seu olhar de erótica beleza
Todo o brilho da orgia da desgraça…

E não posso ficar indiferente,
Só porque afinal, infelizmente,
Foi minha amante essa mulher que passa…

Toda de branco

Toda de Branco vai entrar na Igreja…
Traz a palma e a capela do noivado;
Por isso não é de admirar que esteja
O velho laranjal despetalado.

Deus que é pai, Deus que é bom, Deus a proteja!
Porque nunca ela teve um só pecado…
Sua alma é como a própria sombra, alveja
Hóstia de armindo em cálix nevoado!

É pura, e no entanto amou um dia!
Alguém a teve trêmula nos braços,
Trêmula e branca! Virginal e fria.

Mas hoje é noiva. Afortunada seja!
Mulher de outro por sagrados laços,
Toda de Branco vai sair da Igreja.

A Senhora
Ao Primoroso Cônego Antonio Andrade

Soberba, no silêncio augusto das grandezas,
Loucada do esplendor, das grandes majestades;
Sentinela gigante, a perscrutar reveze,
Feita da veztudez de todas as cidades

Perde monja a rezar, contemplando cidades,
Irmã do vale e o rio irmã das correntezas;
Afrontando o tufão, barrando as tempestades,
– Berço altivo demais para embalar baixezas.

Serra, teu alcantis, teus píncaros selvagens,
Teus profundos desvãos, tuas grandes folhagens,
Sangram meu coração numa amargura estranha…

Sim! Porque de um penhasco em dia de invernada,
Eu vi tombar, rolar, a minha doce amada.
Indo morta cair aos pés de ti, montanha…!

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